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Portfólio de arquiteto e a regra de autoria do CAU

O Código de Ética do CAU obriga registrar coautoria em cada projeto, o que torna a montagem de portfólio uma questão ética e não de diagramação.

Para quase toda profissão deste site, a regra de comunicação do conselho trata de promessa e de preço. Para arquitetura, o assunto é outro, e é mais delicado: autoria. O portfólio é a principal ferramenta de venda de um arquiteto, e o Código de Ética do CAU regula justamente o que pode ser apresentado como seu.

O que o CAU regula

O Código de Ética e Disciplina dos Arquitetos e Urbanistas foi aprovado pela Resolução CAU/BR nº 52, de 6 de setembro de 2013, regulamentando os artigos 17 a 23 da Lei nº 12.378/2010. A estrutura é diferente da dos outros conselhos: em vez de artigos, o código usa itens numerados, organizados em princípios, regras e recomendações.

Quatro itens governam o portfólio. O 3.2.8 diz que o arquiteto deve, ao comunicar, publicar, divulgar ou promover seu trabalho, considerar a veracidade das informações e o respeito à reputação da Arquitetura e Urbanismo. O 3.2.9 vai ao ponto: deve declarar-se impedido de assumir a autoria de trabalho que não tenha realizado, bem como de representar ou ser representado por outrem de modo falso ou enganoso.

O 5.2.10 fecha um caminho lateral: deve declarar-se impedido de associar seu nome a pessoas, firmas, organizações ou empresas executoras de serviços profissionais sem a sua real participação nos serviços por elas prestados. E o 5.2.12 é o que quase nenhum portfólio cumpre: deve reconhecer e registrar, em cada projeto, obra ou serviço de que seja o autor, as situações de coautoria e outras participações, relativamente ao conjunto ou à parte do trabalho.

Leia o 5.2.12 devagar. Não é “pode creditar”, é deve registrar, em cada projeto, e inclusive quando a participação foi de parte do trabalho. Isso transforma a montagem de portfólio em decisão ética, caso por caso, e não em diagramação.

Há ainda o 5.2.11, que veda exercer a crítica da Arquitetura e Urbanismo a fim de obter vantagens concorrenciais sobre colegas. Comentar o projeto do vizinho para se posicionar cai nesse item.

O que cai e o que passa

Cai: o projeto de escritório anterior apresentado como autoria própria; a obra em que a participação foi de uma etapa, exibida sem dizer qual; o render de concurso em equipe publicado sem os coautores; o nome associado a uma construtora sem participação real nos serviços dela; e a análise pública do projeto alheio usada como argumento de venda.

Passa: o projeto próprio com coautoria registrada; a participação parcial descrita como parcial; a obra de escritório anterior identificada como tal, com a função exercida; e o conteúdo que explica uma decisão de projeto, que é a forma de conteúdo que mais aproxima cliente de arquitetura e a que menos se produz.

O padrão aqui não é “pode ou não pode mostrar”. É “está dito quem fez o quê”. Quase tudo passa desde que a atribuição esteja correta.

Onde o primeiro contato se perde

Quem procura arquiteto tem um medo específico, e não é de preço: é de perder controle. A pessoa já ouviu falar de obra que estourou prazo e orçamento, e a primeira conversa é menos sobre estética que sobre como o processo funciona. Página que mostra só imagem bonita não responde isso.

O ponto de perda é o escalonamento da decisão. Ninguém contrata projeto na primeira conversa: pergunta, pensa, conversa com o cônjuge, volta em dois meses. Esse intervalo é normal e é onde o contato evapora, porque nada registra que aquela pessoa perguntou em março e pretendia decidir em junho.

Há uma perda anterior. “Quanto custa um projeto” não tem resposta sem metragem, quais serviços entram e se inclui acompanhamento de obra. Quem responde um valor por metro quadrado sem isso erra, e quem não responde nada perde. O que funciona é explicar publicamente como o honorário se forma, o que também educa o cliente para a conversa seguinte.

Como o cliente é chamado

Cliente, e em obra pública contratante. Projeto é o conjunto; o estudo preliminar vem antes, o anteprojeto depois, o executivo por último, e confundir essas três palavras numa proposta muda o que está sendo vendido. Compatibilização é o ajuste entre disciplinas. RRT é o Registro de Responsabilidade Técnica, que é o documento que vincula o profissional ao serviço. Quem escreve “decoração” num site de arquitetura está entregando outra coisa, e o cliente nota.

Sobre fazer isso sozinho

Projetar, compatibilizar, acompanhar obra, responder cliente e ainda manter portfólio com atribuição correta em cada peça é acúmulo que sobra para quem já está desenhando. O custo disso, com a pesquisa que sustenta cada número, está no artigo Os 23 minutos que a pesquisa nunca mediu.

O que este texto não promete: número de cliente novo, prazo de retorno ou posição no Google. A regra de autoria é levantada antes da primeira publicação, e o que ficar fora dela é recusado, mesmo que o próprio arquiteto peça o contrário.

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