Site de psicólogo e as oito alíneas do Art. 20 do CFP
O Código de Ética do CFP lista em oito alíneas o que vale na divulgação, e duas delas derrubam as duas táticas mais usadas em perfil de consultório.
O Código de Ética do psicólogo resolve a questão da divulgação em um artigo só, com oito alíneas, e vale ler as oito antes de escrever qualquer linha de site. Duas delas eliminam exatamente o que mais se vê em perfil de consultório: o preço como chamada e a técnica da moda como diferencial.
O que o CFP regula
O Código de Ética Profissional do Psicólogo foi aprovado pela Resolução CFP nº 10/2005 e está em vigor desde 27 de agosto de 2005. O Art. 20 trata de quem promove publicamente seus serviços, por quaisquer meios, individual ou coletivamente, e determina que o profissional:
- a) informará o seu nome completo, o CRP e seu número de registro;
- b) fará referência apenas a títulos ou qualificações profissionais que possua;
- c) divulgará somente qualificações, atividades e recursos relativos a técnicas e práticas que estejam reconhecidas ou regulamentadas pela profissão;
- d) não utilizará o preço do serviço como forma de propaganda;
- e) não fará previsão taxativa de resultados;
- f) não fará auto-promoção em detrimento de outros profissionais;
- g) não proporá atividades que sejam atribuições privativas de outras categorias profissionais;
- h) não fará divulgação sensacionalista das atividades profissionais.
A alínea d é a que mais surpreende, porque em outras áreas da saúde divulgar preço é permitido. Aqui não é: o valor da sessão não pode ser usado como propaganda, e isso alcança o “primeira sessão com desconto” e o pacote promocional.
A alínea c é a mais cara de ignorar. Ela não proíbe usar uma abordagem, proíbe divulgar recurso que não esteja reconhecido ou regulamentado pela profissão. Toda técnica que circula como diferencial de marketing passa por esse filtro antes de entrar no site, e o filtro não é de opinião.
O Art. 19 acrescenta um dever para quem participa de veículo de comunicação: zelar para que a informação dissemine conhecimento sobre as atribuições, a base científica e o papel social da profissão.
Sobre redes sociais, a Nota Técnica nº 1/2022, de 21 de junho de 2022, orienta a categoria a não expor informação que identifique ou possa vir a identificar paciente, o que alcança depoimento, print de conversa e imagem de atendimento. “Possa vir a identificar” é mais largo do que parece: o relato de caso sem nome identifica quando o detalhe é específico.
O que cai e o que passa
Cai: “primeira sessão R$ X” e qualquer pacote com preço na peça; o print de conversa de paciente, ainda que com o nome apagado; o depoimento em destaque; o relato de caso com detalhe suficiente para alguém reconhecer a pessoa; a lista de formações que inclui curso não reconhecido pela profissão; e o “em oito semanas você vence a ansiedade”, que a alínea e alcança por previsão taxativa.
Passa: nome completo, CRP e número de registro; as abordagens reconhecidas em que atua; conteúdo que explica o que é um processo terapêutico e como funciona; a indicação de quando procurar ajuda; e informação sobre sigilo, que é o assunto que mais gera dúvida e que quase nenhum perfil aborda.
Onde o primeiro contato se perde
O primeiro contato em Psicologia é diferente de todos os outros, porque a pessoa que escreve está pedindo ajuda e exposta ao mesmo tempo. Ela manda uma mensagem num momento de coragem, e essa coragem tem prazo. Quem responde no dia seguinte responde para outra pessoa.
Há uma perda anterior à mensagem, e é a mais silenciosa: a página que não diz se atende on-line, se atende adulto ou criança, qual a abordagem e como funciona o sigilo. Quem não acha isso não pergunta, vai embora, porque perguntar já é expor-se. Em nenhuma outra área a informação ausente custa tanto quanto aqui.
O terceiro ponto é a falta. Paciente que desmarca duas vezes e desaparece não virou alta, virou interrupção de processo, e o contorno disso é clínico antes de ser de agenda. Mas sem registro de quem faltou, nem a parte de agenda existe.
Como o paciente é chamado
Paciente, e há quem prefira cliente dependendo da abordagem, o que é uma escolha teórica e não de estilo. Sessão, nunca consulta; processo terapêutico, não tratamento; acolhimento é a escuta inicial. A primeira sessão costuma ser entrevista inicial ou triagem. Quem escreve “terapia rápida” num site está anunciando prazo, e prazo é previsão de resultado.
Sobre fazer isso sozinho
Atender, registrar evolução, cuidar do sigilo e ainda manter uma presença que passe pelas oito alíneas é mais trabalho do que parece, e o custo de acumular isso, com a pesquisa que sustenta cada número, está no artigo Os 23 minutos que a pesquisa nunca mediu.
O que este texto não promete: número de paciente novo, prazo de retorno ou posição no Google. A norma de publicidade é levantada antes da primeira publicação, e o que ficar fora dela é recusado, mesmo que o próprio psicólogo peça o contrário.