Você pode ser cancelado por qualquer coisa. A graça te aceita por tudo.
Um print antigo. Uma frase mal escolhida. Uma opinião que envelheceu. O tribunal não marca audiência, não ouve defesa e não arquiva processo. O registro fica disponível para consulta, e a sentença pode ser reaberta por qualquer pessoa, em qualquer momento.
O efeito não fica restrito a quem foi exposto. Ele muda o comportamento de quem assiste. Você pesa a frase antes de dizer, relê a mensagem antes de enviar, evita o assunto que rende interpretação torta. Passa a viver na expectativa de um erro que ainda não cometeu.
Em Cancelando a Incerteza, Anderson Chipak coloca esse tribunal ao lado de outro veredito. A graça, na tradição cristã, é uma aceitação que não depende de reputação intacta: ela já contava com o pior do seu histórico quando aceitou, e por isso não abre processo de revisão quando alguém desenterra o print.
A insegurança de viver sob julgamento constante não se resolve com mais cuidado na hora de falar. Ela se resolve quando a aprovação que sustenta você deixa de ser distribuída por voto.
O mundo revisa o veredito a cada notícia nova. A graça não abre revisão, porque já sabia de tudo no dia em que aceitou.
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