Faça amigos na era da solidão — para quem se sente invisível
O vagão vai cheio. Alguém encosta no seu ombro na curva, pede licença, desce. No bar da esquina o barulho não cabe na calçada. Você chega em casa, fecha a porta, e o silêncio tem outro volume. Passou o dia inteiro perto de gente e não conversou com ninguém sobre nada que importasse.
A lista de contatos não bate com a lista de vínculos. Tem colega de trabalho, tem grupo de condomínio, tem quem curte o que você posta. Falta a pessoa que liga sem motivo, só para saber se o resultado do exame saiu. Essa diferença não aparece em nenhuma tela, e é ela que pesa.
Amizade adulta esbarra numa condição que a escola resolvia sozinha: repetição sem propósito. Você via as mesmas pessoas todo dia sem precisar marcar nada. Depois disso, todo encontro exige convite, agenda e alguém disposto a insistir. Quase ninguém insiste, porque insistir parece atrapalhar. Então todo mundo espera, e o vínculo morre de espera.
Cercado de Gente, Sem Ninguém trata o pertencimento como coisa construída, com etapa e sequência. Conhecido vira amigo quando alguém arrisca a primeira conversa fora do assunto neutro e quando o encontro deixa de depender de sorte para virar hábito. V.V. Calegari descreve onde essa passagem costuma travar e o que a destrava.
Sozinho por escolha e sozinho por falta são estados diferentes, e confundir os dois mantém a pessoa parada. Há descanso na solidão escolhida. O que corrói é a que se instalou sem ninguém decidir por ela, e que continua enquanto os dois lados esperam que o outro comece.
Ninguém está sozinho por falta de gente por perto. Está sozinho porque ninguém ali sabe o que aconteceu com ele esta semana.
Leitura gratuita para assinantes do Kindle Unlimited.
Comprar na AmazonVocê será redirecionado para a Amazon.com.br