A arte de recomeçar em outra cidade — para quem deixou tudo para trás
Você conhece o caminho até o trabalho e mais nenhum. Não tem para quem mandar mensagem no fim da noite dizendo que o dia foi ruim. A cidade funciona bem sem você, e isso fica evidente aos domingos.
A mudança foi decisão sua, e é por isso que a saudade vem acompanhada de culpa. Reclamar parece ingratidão. Voltar parece derrota. Então você segura tudo e responde que está se adaptando bem quando ligam de lá.
Cidade Nova, Vida do Zero percorre essa travessia sem apressar a parte difícil. Existe luto em mudar de cidade, ainda que a mudança tenha sido boa: você perdeu a padaria, o trajeto automático e uma rede que levou anos para se formar e não cabe em caixa de papelão.
Depois vem a reconstrução, lenta e feita de repetição. O mesmo café, o mesmo horário, o mesmo grupo, até alguém saber o seu nome sem perguntar. Pertencimento chega por acúmulo de presença, e presença leva um tempo que ninguém consegue encurtar.
Ninguém muda só de endereço. Você deixou para trás uma rede que levou anos para existir e que não entra no caminhão. O que vem depois é reconstrução, não adaptação.
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