Enfrente a infertilidade e a reprodução assistida sem culpa no coração
A caixa de teste fica escondida no fundo da gaveta e você sabe exatamente onde. O calendário do celular tem marcações que só você entende. A data chega, o resultado repete, e o dia segue normal por fora: trabalho, almoço, resposta no grupo da família. Ninguém no escritório sabe que alguma coisa terminou de manhã.
O luto dessa perda não tem lugar reconhecido. Não houve nome, não houve enterro, não houve licença, e mesmo assim houve perda. Como ninguém ao redor identifica o que aconteceu, você aprende a repor o rosto rápido. A culpa entra por aí: se ninguém mais está sofrendo, você conclui que está exagerando.
A culpa também tem endereço concreto. O anticoncepcional de anos atrás. A carreira que veio primeiro. O peso, o estresse, o exame que você adiou. Você reconstrói a própria história atrás de um erro que explique o presente, e essa reconstrução não termina, porque corpo humano não funciona como conta de causa e efeito.
Esperar com o Coração acompanha as etapas da reprodução assistida pelo lado que o consultório não cobre: a agenda tomada por procedimento, o dinheiro que some, a intimidade que virou protocolo, o casal que passa a conversar só sobre isso. Dois lutos diferentes convivendo na mesma casa costumam se desencontrar de horário.
Não existe aqui promessa de desfecho, e o livro estabelece isso cedo. Existe o trabalho de sustentar o coração enquanto a espera dura: o que fazer com o chá de bebê da cunhada, com a pergunta na ceia de fim de ano, com a decisão de parar ou de continuar. Esperar firme é diferente de esperar anestesiado.
A perda que se repete todo mês não tem nome, data nem cerimônia. Sem lugar reconhecido para o luto, quem sofre acaba concluindo que está exagerando.
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