Atender o dia inteiro sem levar a grosseria dos outros para dentro de casa.
O cliente foi grosso antes de você terminar o bom-dia. Você resolveu o caso, chamou o próximo da fila e seguiu. No caminho de volta, a cena voltou inteira, com a resposta que você deveria ter dado e não deu.
A linha de frente tem uma característica que quase nenhum treinamento cita: a irritação chega pronta. O atraso da entrega, a cobrança errada, o dia ruim de quem acordou brigado com o mundo. Nada disso começou em você, e mesmo assim chega em você, com crachá e nome.
Não Leve para Casa trata do resíduo. Cada atendimento difícil deixa tensão parada no corpo, e o expediente empilha uma sobre a outra. No fim do turno o cansaço não corresponde ao trabalho feito. Corresponde ao que você absorveu enquanto fazia.
O caminho é técnico. Como devolver o problema a quem ele pertence sem perder a educação. Como manter a voz firme enquanto o outro levanta a dele. O que fazer entre o fim do expediente e a porta de casa, para que a tensão não atravesse junto.
Quem atende por muito tempo aprende a proteger a própria energia, ou para de conseguir atender bem. Sem isso, a gentileza vira desgaste, e o desgaste chega em casa em forma de mau humor com gente que nunca pisou no seu balcão.
A grosseria chega pronta, endereçada ao crachá. O trabalho de quem atende é resolver o caso sem guardar a raiva de estranhos que nem sabem o seu nome.
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