Como largar a pressão de parecer bem — para a mente que não para
Perguntaram como você está e a resposta saiu inteira, com o sorriso já montado, antes de qualquer consulta interna. Você seguiu o dia. Por dentro continua um cansaço que não cabe em resposta educada e que você também não sabe descrever direito nas poucas vezes em que alguém insiste na pergunta.
Existe uma régua invisível que exige bem-estar constante: produtivo, grato, resolvido, de bem com a vida. Quando você não está, chega uma camada nova em cima da primeira. A culpa de não estar bem. A vergonha de admitir. A cobrança de reagir logo. O motivo original continua do mesmo tamanho, e agora tem companhia.
À noite vem a revisão. O que você falou na reunião, o tom da mensagem enviada com pressa, se alguém notou que você estava mal. A cabeça reprocessa o dia procurando falha de aparência, não falha de conteúdo. É trabalho longo, cansa mais do que o assunto que o disparou e nunca termina em veredito nenhum.
Permissão para Não Estar Bem tira a exigência de performar bem-estar sem trocá-la por drama. Mariovaldo Carrilho separa sentir o que dói de ficar mexendo no que dói: uma coisa passa, a outra se alimenta da atenção que recebe. E oferece o que fazer quando as duas se confundem no fim do dia, que é quando elas costumam se confundir.
A permissão muda menos coisa por fora do que parece. Você continua respondendo bem quando não quer explicar nada a ninguém, e essa continua sendo uma escolha legítima. O que muda é a conta interna: parar de gastar o dia administrando a impressão de estar inteiro devolve uma energia que você nem sabia estar comprometida.
Manter a aparência de quem está bem consome mais do que aquilo que você está escondendo. E o gasto não aparece em lugar nenhum, justamente porque a aparência funciona.
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