Escreva um livro sem travar e tire sua história da página em branco
Você abre o documento com tempo reservado e boa vontade. Escreve uma linha. Lê a linha. Apaga. Abre uma aba para conferir uma palavra e o tempo reservado termina ali. O arquivo continua com o nome que você deu meses atrás e nenhuma página dentro dele.
O travamento raramente vem da falta de ideia. A história existe, você a repassa no trânsito e antes de dormir. O que falha é a passagem da cabeça para a tela, e ela falha num ponto específico: a versão inicial precisa ser ruim para chegar a existir, e você não autoriza isso.
O crítico interno não espera o parágrafo terminar. Ele corrige enquanto você digita, e escrever com ele ligado é dirigir com o freio de mão puxado. O livro separa as duas funções em turnos diferentes: escrever agora, julgar depois, nunca na mesma sessão.
Depois da largada vem o trecho em que a maior parte dos projetos para. O começo tinha energia, o fim ainda está longe, e o meio é só trabalho. A Primeira Frase é a Mais Difícil monta uma rotina que avança sem inspiração: sessão curta, ponto de retomada anotado antes de fechar o arquivo, critério para saber que o dia rendeu.
O rascunho terminado é feio. Tem repetição, buraco de enredo, personagem que troca de nome no meio. Ele também é a única coisa que se pode revisar. Um livro imaginado com perfeição não tem revisão possível, porque não existe texto onde trabalhar. O caminho passa por aceitar esse rascunho feio.
Nenhuma frase de abertura é boa. Ela existe para que a seguinte tenha onde se apoiar. Quem exige a frase certa antes de escrever qualquer coisa fica com o livro inteiro na cabeça.
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