Atravesse as fases da aposentadoria — para quem deixou a carreira
Meio da manhã de uma terça. Você está em casa, de banho tomado, pronto para nada. O celular não toca por assunto de trabalho desde a semana passada, e não vai voltar a tocar. A casa está em silêncio e o silêncio ocupa mais espaço do que você imaginava.
O emprego não pagava só salário. Ele dava horário, assunto de conversa, gente esperando alguma coisa de você e uma resposta pronta para a pergunta sobre o que você faz. Tudo isso saiu junto com o crachá, e nada disso foi listado na rescisão.
Ninguém trata a saída como perda. As mensagens falam em descanso merecido e você agradece, porque discordar soa ingrato. Por dentro a sensação é outra: não é só a função que ficou para trás, é o próprio contorno — a forma como as pessoas te localizavam e como você se localizava entre elas.
A travessia acontece por etapas, e reconhecer em qual delas você está evita conclusões apressadas. Existe o alívio inicial, o vazio que chega quando as pendências acabam, a fase de encher a agenda com qualquer coisa para não sentir a folga, e o ponto em que é preciso escolher o que vai ocupar o lugar do trabalho de verdade.
Identidade construída sobre função dura enquanto a função existe. O que continua depois é outra coisa: o que você sabe, o que ainda quer, para quem a sua presença faz falta. É por esse terreno que Quem Eu Sou sem o Crachá conduz, sem tratar a etapa como despedida.
O crachá respondia por você em uma frase. Sem ele, a pergunta volta inteira — e desta vez precisa ser respondida por dentro.
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