Atravesse o luto com esperança cristã e volte a viver com a saudade
O número continua salvo no telefone. Você não apaga e não liga. A lista de contatos é um dos últimos lugares onde a pessoa ainda aparece no tempo presente, ao lado dos vivos, na ordem alfabética de sempre. Mexer nisso parece uma decisão grande demais para uma terça-feira qualquer, então você desce a tela e passa por cima do nome mais uma vez.
Quem está de fora mede o luto pelo tempo que passou desde o enterro. Quem está dentro mede pela distância entre uma onda e a próxima. As ondas não avisam. Vêm no corredor do supermercado, numa música que tocou por acaso, num cheiro que você não esperava encontrar naquele lugar.
Existe um medo específico que quase ninguém diz em voz alta: o de que melhorar seja uma forma de esquecer. A primeira vez que você ri de novo vem acompanhada de culpa. O dia em que a lembrança demora a aparecer parece traição. Esse medo prende mais do que a própria dor.
A Saudade que o Amor Deixa caminha por dentro disso, sem pressa e sem frase pronta. Junta o que se conhece sobre o funcionamento do luto a uma esperança cristã que não cobra recuperação rápida nem exige explicação para a perda. Falar o nome, guardar o objeto, marcar a data: memória cuidada ocupa lugar, e ocupar lugar é diferente de bloquear caminho.
A dor não diminui no mesmo ritmo em que o dia volta a funcionar. Elas passam a caber juntas, e é isso que ninguém explica a quem está começando. Você trabalha, cozinha, atende o telefone, dorme mal em algumas noites e bem em outras. A saudade fica em algum ponto do peito, sem precisar ser resolvida naquele dia nem no seguinte.
A saudade é o formato que o amor assume quando a pessoa não está mais aqui. Ela permanece porque o vínculo existiu, e nenhum prazo de calendário foi combinado para desfazê-la.
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