A diferença entre ter contatos e ter alguém — e o que refaz um vínculo adulto.
O último amigo com quem você falava de qualquer coisa não brigou com você. As conversas foram ficando espaçadas, os dois entraram em fases ocupadas, e um dia o telefone parou de tocar sem que ninguém tivesse decidido isso. O nome continua salvo no celular. Faz tempo que você não abre.
O que sobrou é contato. Você cumprimenta, responde, participa de grupo, é chamado para o que é coletivo. Conexão é outra medida: alguém que saiba o que anda acontecendo com você sem precisar perguntar duas vezes. Uma coisa se acumula sozinha e a outra não, e é por isso que a agenda cheia não alivia o fim do dia.
Aí entra a parte que você não conta. Dizer em voz alta que anda sozinho parece confissão de fracasso, então o assunto fica guardado. Guardado, ele vira conclusão a seu respeito: se todo mundo dá conta disso e você não, o defeito deve ser seu. A vergonha faz o serviço de manter tudo exatamente onde está.
Sozinho no Meio de Todos trata a reaproximação como caminho de volta. Procurar quem já foi próximo custa menos do que começar do zero, e quase ninguém tenta, porque a mensagem depois de tanto silêncio parece exigir explicação e desculpa. O livro desmonta essa exigência e mostra o que costuma acontecer do outro lado.
A outra parte é a sua relação com as horas em que não há ninguém. Enquanto a noite em casa for insuportável, toda aproximação sai apressada, e pressa afasta. Leliane Calegari conduz isso em ritmo de conversa, sem mandar você sair mais nem entrar em grupo nenhum. O ponto de chegada é ter para quem ligar, e não precisar ligar toda noite.
Contato se acumula sozinho. Vínculo precisa de alguém disposto a voltar. É por isso que a agenda cheia e o fim de dia vazio convivem sem nenhuma contradição.
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