Reacenda a criatividade na maturidade — para quem engavetou um sonho
A ideia volta no trânsito, na fila do mercado, na hora de dormir. Você reconhece o assunto na hora, e a resposta chega antes do desejo: agora não dá, isso é coisa de quem começou cedo. A conversa se encerra ali, sozinha, sem ninguém em volta saber que ela aconteceu.
O tempo foi sendo tomado em partes. Trabalho, casa, contas, gente para cuidar. O que sobra do dia é pequeno e cansado, enquanto o projeto criativo parece pedir bloco grande e disposição inteira. Então ele fica para quando der, e quando der é um horário que não existe no calendário de ninguém.
Debaixo da falta de tempo mora outra coisa. Quem começa cedo produz material ruim em público e chama isso de aprendizado. Quem recomeça depois produz o mesmo material ruim e chama de vexame. A idade não é o obstáculo; o obstáculo é a plateia imaginária formada por gente que conheceu você em outra fase.
A maturidade entra como matéria-prima. Repertório, histórias vividas, ouvido para reconhecer o que é falso numa cena, paciência para refazer sem drama. Tarde Demais é Mentira trata isso como vantagem de trabalho: o que se acumula em anos é exatamente o que falta a quem tem só a técnica.
O caminho proposto é curto de propósito. Sessão pequena, tarefa escolhida antes de sentar, ponto de retomada deixado pronto para o dia seguinte. E a decisão de mostrar o trabalho a alguém antes de ele estar bom, que é onde a maior parte dos projetos adultos para em silêncio.
A idade nunca foi o impedimento. O impedimento é um acordo silencioso de que começar agora seria constrangedor — e esse acordo você assinou sozinho.
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