Recolocação após a maternidade — para a mãe que ficou para trás
A casa dormiu e você continua acordada com a planilha aberta. Creche, transporte, comida fora, a roupa que precisaria comprar para a entrevista. Você reordena as células e o resultado não muda. Voltar a trabalhar custa dinheiro antes de render dinheiro, e essa conta ninguém explica antes.
O medo tem endereço: o intervalo no currículo. Você imagina a pergunta na entrevista, o silêncio depois da sua resposta, a comparação com quem não parou. Enquanto isso, adia o envio da primeira candidatura por mais uma semana, e depois por outra.
O que aconteceu nesse intervalo não foi ausência de trabalho. Foi orçamento apertado administrado, agenda de várias pessoas coordenada, negociação diária, decisão tomada sob cansaço. Nada disso aparece no formato em que currículo é escrito, e é por aí que o livro começa: pela tradução.
Depois vem o plano. Onde procurar, o que aceitar no início, quanto deslocamento cabe na rotina, que arranjo de cuidado sustenta a semana inteira. Recolocação que dá certo é a que cabe na vida que existe, com escola, filho doente e imprevisto no meio da tarde.
A entrevista é o último item, e chega mais leve quando os anteriores estão resolvidos. Quem sabe nomear o que fez no período fora responde à pergunta sobre o intervalo sem pedir desculpas por ele. A pausa deixa de ser o assunto da conversa e volta a ser o que sempre foi: um trecho da sua história de trabalho.
O intervalo não está vazio. Ele foi ocupado por trabalho que ninguém registrou em carteira, e a recolocação começa no dia em que esse trabalho ganha nome.
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