Atravesse o luto na viuvez — para quem recomeça a rotina sozinho
A parte difícil chega depois. No começo teve gente na casa, comida na geladeira, telefone tocando o dia inteiro. Aí veio uma quarta-feira comum, sem visita marcada e sem nada urgente para resolver. Cada um voltou para a rotina que ainda tinha. A sua ficou parada no lugar onde estava.
A saudade você reconhece. O resto não avisa. A lista do mercado ainda sai do tamanho de sempre. Você diz a gente e corrige no meio da frase. O alarme do remédio continua marcado no celular e ninguém desligou. A viuvez desmonta a rotina inteira, e era a rotina que segurava o dia de pé.
Recomeçar vem acompanhado de uma acusação. Aceitar o convite, rir de uma bobagem, trocar a poltrona de canto — qualquer movimento na direção da vida soa como abandono. Ficar parado também dói, só que dói de um jeito já conhecido. A Xícara que Sobrou caminha nesse trecho sem apressar ninguém, apoiada no que a psicologia do luto entende sobre perda.
Datas marcadas, gavetas fechadas, o canto da casa onde você não senta mais: cada um tem hora própria e nenhum precisa ser resolvido hoje. Honrar quem partiu e voltar a ter dias com cor não disputam o mesmo espaço. O armário pode seguir como está enquanto você aceita um convite de sábado. Luto e vida seguem juntos na mesma semana.
Você não precisa escolher entre seguir e lembrar. O luto não cobra essa troca. Quem cobra é a impressão de que voltar a viver ofende quem partiu.
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