Como cuidar de pais idosos sem se perder na exaustão do cuidador
Você confere a cartela, separa o comprimido, anota o horário da próxima dose. Em algum ponto dessa sequência o gesto se inverte: é o mesmo cuidado que você recebeu, agora na direção contrária. Ninguém avisa que essa troca acontece, e ela não acontece num dia marcado. Vai chegando por etapas, e um dia já está instalada.
A agenda dele foi absorvendo a sua. Consulta, farmácia, exame, a ligação no meio do expediente, a noite em que ninguém dorme direito. Entre o trabalho e os seus próprios filhos, o que era seu foi descendo na lista até sair dela. Você não decidiu isso em nenhum momento. Aconteceu por acúmulo, uma semana de cada vez.
A culpa aparece em todas as direções e não deixa saída. Culpa por fazer pouco. Culpa por perder a paciência com alguém que está doente. Culpa pelo pensamento rápido de que seria mais leve se tudo isso terminasse. Esse pensamento passa pela cabeça de quem cuida por tempo demais, e não diz nada sobre o tamanho do seu amor.
A exaustão do cuidador dá sinais bem antes do colapso: o sono que não repõe, a irritação curta, o desinteresse por aquilo de que você gostava, o corpo cobrando em silêncio. O livro nomeia esses sinais porque quem está dentro da rotina é sempre o último a percebê-los, e costuma percebê-los quando já não há folga para reagir.
Filho e Cuidador ao Mesmo Tempo trata as duas coisas juntas: a logística do cuidado e a pessoa que está cuidando. Dividir tarefas com irmãos que não se apresentam, pedir ajuda sem tratar isso como derrota, e manter na semana um espaço que continue sendo seu enquanto a travessia durar.
Cuidar de um pai que envelhece é travessia longa. Quem se gasta por inteiro no começo não chega inteiro ao meio do caminho, e o cuidado cai junto.
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