Para a mãe que dá conta por fora e não aguenta mais por dentro.
Você acordou antes do alarme porque a noite teve turno: ninar, levar ao banheiro, abafar o choro para não acordar o resto da casa. O dia não começou e já falta chão. Então passa o pensamento que você não repete para ninguém, o de que não aguenta mais. Ele dura um segundo. A vergonha de tê-lo tido dura o resto do dia.
Por fora você é a mãe que dá conta. Lembra da vacina, da mochila, do presente do aniversário dos outros. O cansaço não acompanha essa imagem, então ninguém em casa o registra, e um fim de semana não faz efeito sobre ele. Você mesma passa a duvidar de que ele exista no tamanho que sente.
A comparação sustenta o resto. Toda mãe que aparece pronta e serena vira régua, e a régua diz que mãe boa não fica assim tão cansada. Essa frase nunca é dita em voz alta e mesmo assim decide tudo: ela transforma exaustão em defeito de caráter e cala o pedido de ajuda antes que ele chegue à boca.
O preço aparece longe da lista de tarefas. No sono que não repõe, na paciência que acaba antes do fim da tarde, no gosto pelas coisas que foi se apagando sem aviso. Perguntam como estão as crianças. Em algum ponto do caminho, pararam de perguntar como está você — e você também parou.
A Mãe Que Ninguém Vê dá nome a esse esgotamento e caminha dele até o descanso, capítulo a capítulo. O movimento não é uma questão de método, e sim de deixar de sustentar tudo sozinha e passar a ser amparada em alguma parte da rotina. Enquanto o cansaço não tiver nome, ele não entra em nenhuma conversa dentro de casa.
Não existe maternidade sem apuro. Existe a exigência de atravessar tudo isso sem parecer cansada — e é ela que transforma esgotamento em vergonha, e vergonha em silêncio.
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