A travessia do pós-parto para a mulher que não se reconhece mais no espelho.
O bebê nasceu e o dia dele ficou marcado. O seu, não. Você saiu da maternidade com outro corpo, outro sono e outro nome dentro de casa, e ninguém tratou isso como um começo. Trataram como retorno: você voltando a ser quem era, agora com uma criança no colo.
O amor está inteiro, e essa parte nunca esteve em dúvida. O que ninguém avisou é que ele viria junto com uma estranheza diante do espelho, com a resposta automática de que está tudo ótimo no grupo da família e com a solidão de se sentir sozinha numa casa cheia de gente.
Matrescência é o nome dessa passagem. Ela tem fases, perdas e um intervalo em que a mulher antiga já não serve e a nova ainda não chegou. Sem nome, tudo isso vira suspeita de fracasso pessoal. Com nome, vira travessia — com começo, meio e um outro lado.
Existe uma linha entre o cansaço esperado e o quadro que pede cuidado clínico, e ela é difícil de enxergar de dentro. A Mãe Também Nasce descreve os sinais que separam um do outro, inclui a pressão em torno da amamentação e trata o pedido de ajuda como etapa do processo.
Do outro lado não está a mulher de antes. Está uma mulher recriada, que perdeu coisas, ganhou outras e precisa ser apresentada a si mesma. Esse reencontro leva tempo e acontece no meio da rotina do bebê, não depois dela.
O amor pelo seu filho nunca esteve em dúvida. O que ninguém avisou é que a mulher que saiu da maternidade também precisava nascer.
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