Recupere a energia e o autocuidado — para quem cuida de todos
A última criança dormiu. A cozinha está limpa, a casa em silêncio, e você não vai deitar. Fica na sala com o celular, com a série, com a louça que já podia esperar. É a primeira hora do dia em que ninguém chama o seu nome, e você não quer devolvê-la.
A conta chega na manhã seguinte. Você acorda antes de todos e deita depois de todos. No meio entram lancheira, banho, birra, dever de casa, expediente, mais expediente. O turno não fecha em momento nenhum da semana.
Dormir até tarde no sábado devolve sono. Não devolve o resto. O que gasta em você não é só a hora acordada: é a atenção que fica de plantão o tempo inteiro, atenta ao choro no outro cômodo, ao horário da consulta, ao que falta na geladeira. Sono repõe uma coisa; essa vigilância cobra outra.
A culpa entra na conta. Parar por alguns minutos parece tirar algo de alguém — do filho, do trabalho, da casa que sempre tem uma pendência aberta. Então o descanso vira a última linha da lista, e a lista nunca termina. V.V. Calegari trata o descanso como item fixo da rotina, do tamanho que a rotina permite.
O ponto de partida é a agenda que existe: o intervalo entre o banho e o jantar, o trajeto sozinho no carro, a manhã de sábado antes de a casa acordar. Descanso que depende de um fim de semana livre não acontece. Descanso que cabe em brecha se sustenta.
Quem cuida de todo mundo também cansa. O adulto descansado faz parte da estrutura da casa, e não é um luxo reservado para depois que as pendências acabarem.
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