Kobi Lichtenstein: quem é o mestre que trouxe o Krav Maga ao Brasil
Aluno de Imi desde criança, Kobi chegou ao Rio em 18 de janeiro de 1990. Esta página separa o que tem documento do que é relato dele, e mostra como isso chega ao instrutor da sua academia.
Esta página faz parte do guia de Krav Maga em Curitiba, que mostra como verificar academia, instrutor e linhagem antes de se matricular.
Quem treina Krav Maga em uma academia da Federação Sul-Americana ouve o nome “Mestre Kobi” na primeira semana. Está na parede, no certificado e na explicação de quem formou o instrutor.
Para quem está escolhendo onde treinar, o interesse é prático. Kobi é o elo entre o criador do método, Imi Lichtenfeld, e os instrutores licenciados no Brasil. Se o elo existe e está documentado, a linhagem do seu instrutor pode ser conferida. Se não está, sobra só a palavra de alguém.
Esta página reúne o que dá para conferir sobre ele, separa o que é dado publicado pela Federação do que é relato do próprio Kobi, e aponta onde as fontes não concordam.
Ficha resumida
| Nome | Yaakov "Kobi" Lichtenstein |
|---|---|
| Nascimento | 31 de julho de 1964, em Rehovot, IsraelLinha do tempo da Federação |
| Início no Krav Maga | Com o próprio Imi Lichtenfeld, aos três anos de idadeBiografia oficial diz três anos; a linha do tempo marca 1968 |
| Faixa preta | 1983, recebida de ImiBiografia oficial |
| 6º Dan | Janeiro de 1996, concedido por ImiBiografia oficial e Wikipédia em inglês |
| 8º Dan | Maio de 2011, concedido pelo presidente da Federação Israelense de Krav MagaImi já tinha morrido, em 1998 |
| Chegada ao Brasil | 18 de janeiro de 1990, no Rio de JaneiroData do Dia Nacional do Krav Maga, Lei 13.569/2017 |
| Organização | Fundou a Associação Brasileira de Krav Maga e depois a Federação Sul-Americana de Krav Maga (FSAKM) |
De Rehovot ao tatame de Imi
Kobi conta que quem descobriu a academia de Imi foi o irmão mais velho. Depois foram o pai e a irmã. Ele, pequeno demais para a turma, ficava no banco ao lado da mãe pedindo para entrar.
Segundo o relato dele no Podcast do Merloto, Imi acabou deixando: um mês na turma, imaginando que o menino desistiria ao ver que todo mundo era maior. Não desistiu.
A biografia publicada pela Federação diz que ele começou a dar aulas aos 15 anos e recebeu a faixa preta de Imi em 1983, diplomado pela Associação de Krav Maga Israelense. A mesma biografia registra formação de instrutor pela Universidade Wingate, centro de educação física de Israel, e missões no exército israelense durante a guerra do Líbano de 1982.
Na década de 1980, segundo a Federação, Imi selecionou um grupo de alunos para levar o método adiante depois dele. Kobi diz que eram 13 e que fazia parte deles.
Por que o Brasil
O motivo que Kobi dá tem três partes.
A família. O pai dele nasceu no Brasil “por engano”, numa temporada da avó no país, e voltou a Israel com meses de idade. O assunto Brasil fazia parte da conversa em casa.
O medo nas ruas. Numa viagem em meados dos anos 1980, ele diz ter visto gente carregando roupa boa em sacola de supermercado para não chamar atenção de assaltante. Em Israel, a violência que ele conhecia era outra: atentados, não furto de rua.
A missão. Em 1989, Imi o encarregou de levar o Krav Maga ao Brasil e à América Latina. Kobi conta que passou os seis meses seguintes quase toda semana com Imi, aprendendo menos técnica e mais o que significa levar um método para outro país.
Ele chegou ao Rio em 18 de janeiro de 1990. Pelo relato dele, as aulas só começaram em março, e o primeiro ano foi de mudar de lugar em lugar. Em 1991 abriu a Top Defense, apresentada pela Federação como o primeiro centro de Krav Maga da América Latina.
O que ele diz que não mudou, e o que mudou
A afirmação central de Kobi sobre os 36 anos no Brasil é que a técnica não foi adaptada. O raciocínio dele: a forma de ameaçar com uma faca ou encostar uma arma em alguém é a mesma em qualquer lugar e em qualquer época. Se a base está certa, ela serve para a violência brasileira sem ajuste.
O que mudou, segundo ele, foi a orientação ao aluno e o vocabulário.
- A orientação. Em Israel, quem aponta uma arma costuma querer matar. No Brasil, na maioria das vezes, quer o celular e a carteira. Isso muda o que o aluno é orientado a fazer antes de reagir.
- Os nomes. “Pontos vitais” virou “pontos sensíveis”. Os alunos brasileiros perguntavam o tempo todo se aquilo matava, e falar de morte em aula incomodava.
É uma escolha com custo. Manter o currículo intacto preserva a linhagem e permite comparar o aluno daqui com o de lá. Por outro lado, deixa o método menos aberto a mudanças que outras organizações fizeram ao longo das décadas. Kobi assume essa escolha abertamente: diz que segue “o caminho do Imi” e não muda nada nele.
Krav Maga não é arte marcial, segundo Kobi
Kobi insiste nessa distinção, e o argumento dele é concreto.
Na luta, dois adversários se estudam e um aproveita a brecha do outro. No Krav Maga que ele ensina, o aluno não ataca ninguém. Só reage quando o outro avança e apresenta perigo real. E reage com o que tiver: se alguém pula a mesa com uma faca, o copo vira ferramenta para desviar a atenção.
Duas consequências práticas aparecem nas aulas da Federação:
- O chão é inimigo. Existem técnicas para situações no chão, mas a ordem é sair dele o mais rápido possível, porque na rua quase sempre aparece alguém do lado do agressor.
- Contra faca, defesa, não desarme. Kobi não promete que o aluno sai sem ferimento. Promete que ele aumenta a chance de voltar para casa. Dizer a alguém que não há nada a fazer contra uma faca, no raciocínio dele, é dizer que essa pessoa vai morrer.
A divisão do currículo em 1993
Até 1993, conta Kobi, a faixa preta incluía toda a matéria, civil e militar. Naquele ano o currículo foi dividido, com assinatura de Imi:
| Etapa | O que entra |
|---|---|
| Do iniciante à faixa preta | Tudo o que o civil precisa, armado ou desarmado |
| Da faixa preta ao 5º Dan | O que é específico do mundo militar e policial: reféns, fuzis, granadas, combate com faca |
O motivo era tirar das fases iniciais o que uma pessoa comum não usa. Kobi diz que depois da morte de Imi algumas organizações em Israel fizeram nova divisão, que ele não segue.
Militares e forças de segurança
A biografia oficial lista unidades que já receberam treinamento de Kobi ou da Federação: os Comandos Anfíbios e a Polícia Federal que atuaram na Olimpíada Rio 2016, a segurança pessoal da Presidência da República e de governadores, o BOPE, as Forças Especiais do Exército e o Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS).
Segundo a página da Federação sobre tropas militares, o soldado aprende o mesmo Krav Maga do aluno civil, mas em outro formato:
- O programa é mais curto e montado para a missão: local da operação, equipamento, armamento e tipo de ameaça.
- O civil aprende toda a matéria em detalhe. O profissional de segurança aprende o que a função exige.
- No civil, a agressividade costuma ser contida. No militar, às vezes precisa ser desenvolvida e controlada.
No podcast, Kobi resume a diferença assim: no soldado é preciso aumentar a agressividade, no civil, diminuir. A técnica é a mesma.
Em 2010, Kobi recebeu o título de Colaborador Emérito do Exército Brasileiro, segundo a mesma biografia.
Formação de instrutores e a Kobilândia
O primeiro curso de instrutores da América Latina foi em 1993, segundo a linha do tempo da Federação. Os primeiros faixas pretas formados por Kobi saíram em 2000.
O processo hoje leva anos: curso de monitores, monitoria, seletiva e um curso de instrutores de 400 horas, que passou a ter validação como pós-graduação reconhecida pelo MEC. O passo a passo está em como funciona a formação de instrutor de Krav Maga.
Parte dessa formação acontece no centro de treinamento da Federação, numa área rural do Rio de Janeiro. O apelido, Kobilândia, não foi ideia dele. Kobi conta que construiu ali uma pista de obstáculos para levar os alunos ao limite, e os alunos começaram a dizer que aquilo era a Disneylândia do Kobi: ele se divertia vendo todo mundo sofrer. O nome pegou.
Datas e números que têm registro
- 1964Nasce em Rehovot, Israel, em 31 de julho.
- 1983Faixa preta, recebida de Imi.
- 1989Imi o encarrega de levar o Krav Maga à América Latina.
- 1990Chega ao Rio de Janeiro em 18 de janeiro.
- 1991Abre a Top Defense, no Rio.
- 1993Primeiro curso de instrutores da América Latina e primeiro livro.
- 19966º Dan, concedido por Imi.
- 2000Forma os primeiros faixas pretas no Brasil.
- 2009Medalha Tiradentes (Alerj) e Medalha Pedro Ernesto (Câmara do Rio).
- 2010Evento do centenário de Imi no Rio, com delegações de 28 países e aula de 2.212 pessoas registrada pelo Guinness em Copacabana.
- 20118º Dan, concedido pela Federação Israelense de Krav Maga.
- 2017A Lei 13.569 institui 18 de janeiro como Dia Nacional do Krav Maga.
Onde as fontes não batem
A biografia de Kobi publicada pela Federação é a fonte principal da maioria dos dados acima. A Wikipédia em inglês se apoia, em boa parte, em versões antigas dessa mesma página. São fontes próximas umas das outras, e por isso as divergências abaixo importam.
- Mestrado ou MBA. A Federação diz mestrado em Segurança Nacional e Terror. A Wikipédia diz MBA na mesma área, pela mesma instituição.
- Início do treino. A biografia diz três anos de idade (1967). A linha do tempo da Federação marca 1968. No podcast, Kobi diz três anos e meio, o que é compatível com 1968.
- Quem concedeu o 8º Dan. A Federação diz “o presidente da Federação Israelense de Krav Maga”. A Wikipédia cita Haim Zut e Uri Refaeli, sem fonte. No podcast, Kobi mostra uma foto com Haim, que identifica como presidente dessa federação.
- A faixa preta. A Federação diz que Kobi a recebeu de Imi em 1983. A Wikipédia em português diz que ele treinou com Eli Avikzar, primeiro faixa preta de Imi, e recebeu dele a faixa em 1984; a Wikipédia em inglês lista os dois como professores. A data já foi questionada publicamente, e no podcast Kobi apresenta fotos da década de 1980 em que aparece de faixa preta ao lado de Imi.
Outras linhas de Krav Maga no Brasil
Kobi, aluno de Imi Lichtenfeld, não é a única origem de Krav Maga no país. O irmão mais velho dele, Yaron, também ensina no Brasil, por outra organização. Pelo relato de Kobi, os dois se separaram depois de um desentendimento familiar.
Há também organizações internacionais com outros modelos de formação. Kobi diz que, a partir de 2000, algumas passaram a formar instrutores em cursos de poucos dias, o que espalhou o método rápido pela Europa e por outros lugares. Ele não segue esse caminho e diz isso sem dar nomes: “eu não sou dono da verdade, eu tenho a minha linha”.
Para quem vai escolher uma academia, a pergunta útil não é qual organização é a certa. É se a linhagem que o instrutor diz ter pode ser conferida na fonte. O checklist do guia de Curitiba mostra como.
Perguntas frequentes
Quem é Kobi Lichtenstein?
É o mestre israelense que introduziu o Krav Maga no Brasil e na América Latina, em 1990. Aluno de Imi Lichtenfeld, criador do método, desde criança, preside a Federação Sul-Americana de Krav Maga.
Kobi foi aluno direto de Imi?
Sim. A Federação e a Wikipédia registram que ele começou a treinar com Imi por volta dos três anos de idade e recebeu de Imi o 6º Dan, em 1996. Sobre a faixa preta, a Federação diz que veio de Imi, em 1983; a Wikipédia em português diz que veio de Eli Avikzar, primeiro faixa preta de Imi, em 1984.
Quando o Krav Maga chegou ao Brasil?
Em 18 de janeiro de 1990, com a chegada de Kobi ao Rio de Janeiro. A data virou o Dia Nacional do Krav Maga pela Lei 13.569, de 2017.
Qual é a graduação de Kobi?
8º Dan, recebido em 2011 da Federação Israelense de Krav Maga. O 6º Dan foi concedido pelo próprio Imi, em 1996.
O que é a Kobilândia?
É o apelido do centro de treinamento da Federação, numa área rural do Rio de Janeiro, onde acontecem cursos de monitores e etapas do curso de instrutores.
Como sei se meu instrutor é ligado a Kobi?
A Federação mantém uma lista de instrutores licenciados. Procure o nome do seu instrutor e confira se a unidade aparece no diretório oficial.
Fontes
- Biografia de Kobi Lichtenstein, Federação Sul-Americana de Krav Maga
- Linha do tempo, Federação Sul-Americana de Krav Maga
- Krav Maga no aperfeiçoamento das tropas militares brasileiras, Federação Sul-Americana de Krav Maga
- Centro de Treinamento, Federação Sul-Americana de Krav Maga
- Kobi Lichtenstein, Wikipédia em inglês
- Krav magá, Wikipédia em português
- Lei 13.569, de 21 de dezembro de 2017, Planalto
- Mestre Kobi: a história do Krav Maga no Brasil, Podcast do Merloto (relatos atribuídos a Kobi nesta página)
Vai treinar em Curitiba?
O guia de Krav Maga em Curitiba lista as oito unidades da Federação na cidade, com link para a fonte oficial de cada uma, e as dez perguntas para fazer antes de se matricular.
A linhagem só vale se der para conferir.