Propósito

Ter hobby não é ter outra identidade

O conselho de "arranje um hobby" não responde à pergunta que importa, que é quem você é além do seu trabalho, e a pesquisa sobre o assunto mostra por quê.

Anderson Chipak
Por Anderson Chipak · 9 min de leitura
Capa do artigo “Ter hobby não é ter outra identidade”, com o título sobre fundo escuro e grafismo geométrico

Imagine que alguém te pergunta quem você é, sem deixar você responder com a profissão. Nem o título, nem a especialidade, nem o nome do consultório ou do escritório. Só a identidade que sobra depois disso tudo, e sem contar o hobby como resposta de escape. Para boa parte de quem vive da própria especialidade, advogado, dentista, psicólogo, arquiteto, consultor, essa pergunta trava antes da segunda frase. Não porque falte resposta. Porque toda resposta possível volta, em dois ou três passos, para o mesmo lugar de onde ela devia ter saído.

O conselho padrão para esse travamento é “arranje um hobby”. Ele soa certo e ajuda pouco, porque a maioria de quem recebe esse conselho já tem um. Corre, pinta, toca um instrumento nas horas vagas, cuida de planta. E ainda assim, quando o trabalho vai mal numa semana, a semana inteira vai mal. O hobby continua ali, sem fazer diferença nenhuma na queda. Isso devia bastar para suspeitar que o problema não é a ausência de uma atividade fora do trabalho. É outra coisa, e ela tem nome.

Por que “arranje um hobby” não resolve o problema

Autocomplexidade
Quantidade de domínios distintos e independentes que compõem a forma como alguém se vê. Uma pessoa com baixa autocomplexidade enxerga a própria vida quase inteira através de um único papel. Uma pessoa com autocomplexidade maior tem dois ou mais papéis que não dependem um do outro para funcionar bem, e cada um carrega o seu próprio critério de sucesso.

Hobby e identidade não são a mesma coisa. Um hobby é uma atividade que você faz. Uma identidade é um lugar onde você já é alguém, com um critério próprio de ter ido bem ou mal, que não precisa de aprovação do trabalho para existir.

Correr três vezes por semana é uma atividade. Ser a pessoa que o grupo de corrida reconhece, espera e cobra quando falta, é identidade. A diferença entre as duas não é de intensidade, é de função. A atividade ocupa tempo. A identidade absorve parte do golpe quando o trabalho vai mal.

O que a pesquisa de Linville mediu quando separou quem tinha uma identidade de quem tinha várias

A psicóloga Patricia Linville testou essa ideia de um jeito simples. Pediu que as pessoas descrevessem a si mesmas em várias frases, depois agrupou essas frases por papel: profissional, pai ou mãe, amigo, membro de um grupo, o que fosse. Quem produzia grupos de frases muito parecidos entre si, repetindo os mesmos adjetivos independente do papel, tinha baixa autocomplexidade. Quem produzia grupos distintos, sem repetir adjetivo de um papel para o outro, tinha autocomplexidade alta.1

O achado de 1985 já era contraintuitivo: o humor médio das duas pessoas, ao longo de duas semanas de diário, não era diferente. A diferença aparecia na amplitude. Quem tinha só um domínio de identidade vivia dias muito bons e dias muito maus. Quem tinha vários vivia dias mais parecidos entre si, porque um tropeço num domínio não contaminava automaticamente os outros.

O estudo seguinte, de 1987, testou a hipótese com gente de verdade enfrentando evento estressante de verdade: quem tinha autocomplexidade mais alta apresentou menos sintomas depressivos e menos sintomas físicos depois de um período ruim, comparado a quem concentrava tudo num domínio só.2 A metáfora que ficou associada ao estudo é direta: não ponha todos os ovos na mesma cesta cognitiva. Se o trabalho é a única cesta onde você guarda a sua avaliação de si mesmo, qualquer rachadura nela derruba o total.

A parte que o conselho de hobby esconde

Até aqui a lógica parece simples: quanto mais pedaços de identidade, melhor. Uma revisão publicada quase duas décadas depois complicou essa conclusão, e é a parte que o conselho raso nunca menciona.3 Juntando o conjunto de pesquisas feitas depois de Linville, a revisão encontrou uma relação fraca e, em alguns recortes, negativa entre ter muitos domínios de identidade e bem-estar. O efeito de proteção contra estresse também não se repetiu de forma consistente em todos os estudos.

A explicação mais aceita para essa inconsistência não descarta a ideia original, ela afina o critério. O que protege não é o número de papéis que alguém consegue listar. É se cada papel tem valor próprio e critério de sucesso independente dos outros. Listar “sou corredor” na pesquisa não cria proteção nenhuma se correr for só uma caixa marcada no questionário, sem peso real na forma como a pessoa se avalia. A proteção aparece quando o segundo domínio é avaliado com a mesma seriedade que o primeiro, não quando ele só existe no papel.

Quem você é quando o papel principal desaparece de verdade

A pergunta fica mais séria quando o papel principal não só balança, desaparece por inteiro: aposentadoria, afastamento por doença, mudança forçada de área. A socióloga Helen Rose Ebaugh entrevistou mais de cento e oitenta pessoas que tinham deixado para trás um papel central, entre elas ex-médicos, ex-policiais, aposentados e ex-religiosos. Ela descreveu um processo com etapas reconhecíveis: primeiro a desilusão com o papel antigo, depois a busca por alternativas, um ponto de virada que força a decisão, e só então a construção de uma identidade que incorpora o “ex” em vez de negá-lo.4

O ponto incômodo do trabalho dela é que esse processo leva tempo e não é automático. Quem chega à aposentadoria sem nenhum domínio de identidade construído fora do trabalho não ganha um de presente no dia da festa de despedida.

Uma pesquisa mais recente acompanhou pessoas ao longo da transição para a aposentadoria e mediu isso de forma direta: quem mantinha outras identidades sociais fortes, além da profissional, antes de se aposentar, conseguia manter e ganhar outros vínculos de grupo depois de se aposentar, e isso sustentava uma trajetória de saúde e bem-estar mais estável. Quem chegava com a identidade profissional como praticamente a única fonte de pertencimento tinha mais dificuldade em reconstruir esses vínculos, e trajetória pior.5

Isso conecta direto com quem ninguém faz do jeito que você faz: a mesma característica que faz alguém insubstituível no trabalho é a que deixa esse trabalho carregando, sozinho, o peso inteiro da identidade de quem o faz.

Ebaugh descreve a segunda etapa do processo, a busca por alternativas, como a mais difícil de apressar. Ela não começa no dia em que o papel antigo termina. Começa muito antes, enquanto o papel antigo ainda está de pé e parece absurdo gastar energia construindo outra coisa.

É exatamente esse o motivo de “Quem Eu Sou sem o Crachá”, de Leliane Calegari, tratar a travessia da aposentadoria como luto de rotina e vazio de função. Não como um problema que se resolve depois que o crachá já foi devolvido. O trabalho de reconstrução de identidade, segundo a própria pesquisa de Ebaugh, rende mais quando começa antes da saída forçar o início.

O que eu sustento sobre a minha própria conta disso

Eu defendo, publicado em três lugares diferentes do material da própria ALC, que um dono com nome para cada frente vale mais que uma equipe genérica. Defendo essa posição comercial e não vou recuar dela.

Mas seria desonesto escrever um texto sobre concentração de identidade sem admitir o preço dessa escolha na minha própria conta. Ela concentra em mim, numa única frente, o mesmo tipo de domínio único que esse texto trata como risco. Não resolvi isso. Não tenho um segundo domínio com peso equivalente para apresentar aqui como prova de que já corrigi a rota. Tenho a clareza de que fingir ter resolvido seria pior do que admitir que ainda não resolvi.

Sobre o que este texto também não resolve por você: qual seria o seu outro pedaço, se tivesse que escolher um hoje, e há quanto tempo você não deixa esse pedaço valer tanto quanto o trabalho vale, mesmo numa semana em que o trabalho vai bem?


  1. Linville, P. W. (1985). Self-complexity and affective extremity: Don’t put all of your eggs in one cognitive basket. Social Cognition, 3(1), 94–120. ↩

  2. Linville, P. W. (1987). Self-complexity as a cognitive buffer against stress-related illness and depression. Journal of Personality and Social Psychology, 52(4), 663–676. ↩

  3. Rafaeli-Mor, E., & Steinberg, J. (2002). Self-Complexity and Well-Being: A Review and Research Synthesis. Personality and Social Psychology Review, 6(1), 31–58. ↩

  4. Ebaugh, H. R. F. (1988). Becoming an Ex: The Process of Role Exit. University of Chicago Press. ↩

  5. Haslam, C., Lam, B. C. P., Ghafoori, E., Steffens, N. K., Haslam, S. A., Bentley, S. V., Cruwys, T., & La Rue, C. J. (2023). A longitudinal examination of the role of social identity in supporting health and well-being in retirement. Psychology and Aging, 38(7), 615–626. ↩

Glossário

Autocomplexidade
Quantidade de domínios distintos e independentes que compõem a forma como alguém se vê. Uma pessoa com baixa autocomplexidade enxerga a própria vida quase inteira através de um único papel. Uma pessoa com autocomplexidade maior tem dois ou mais papéis que não dependem um do outro para funcionar bem, e cada um carrega o seu próprio critério de sucesso.

Referências

  1. ↑ P. W. Linville. Self-complexity and affective extremity: Don't put all of your eggs in one cognitive basket. Social Cognition. 1985. consultar Acesso em 2026-10-17.
  2. ↑ P. W. Linville. Self-complexity as a cognitive buffer against stress-related illness and depression. Journal of Personality and Social Psychology. 1987. consultar Acesso em 2026-10-17.
  3. ↑ E. Rafaeli-Mor; J. Steinberg. Self-Complexity and Well-Being: A Review and Research Synthesis. Personality and Social Psychology Review. 2002. consultar Acesso em 2026-10-17.
  4. ↑ H. R. F. Ebaugh. Becoming an Ex: The Process of Role Exit. University of Chicago Press. 1988. consultar Acesso em 2026-10-17.
  5. ↑ C. Haslam; B. C. P. Lam; E. Ghafoori; N. K. Steffens; S. A. Haslam; S. V. Bentley; T. Cruwys; C. J. La Rue. A longitudinal examination of the role of social identity in supporting health and well-being in retirement. Psychology and Aging. 2023. consultar Acesso em 2026-10-17.

Se este tema falou com você

Estes livros continuam a conversa. São do acervo próprio, e cada um pega o assunto por um ângulo.

quem eu sou além do trabalhoidentidade profissionalautocomplexidadeburnoutaposentadoriapropósito
Anderson Chipak
Anderson Chipak

Vinte anos construindo software para sistemas que não podem errar. Hoje assume a operação digital de quem vive da própria especialidade — e escreve sobre o custo de fazer tudo sozinho.

Ver mais publicações